Na Human Saúde Integrativa, a gente costuma explicar assim para as famílias: o pé não “anda sozinho”. A forma como a criança pisa é a expressão de um sistema inteiro — quadril, joelho, tornozelo, tônus, equilíbrio, coordenação e até o jeito como ela explora o chão. No Protocolo C.R.I.A.R., por isso, a palmilha nunca entra como “correção mágica”, e sim como uma ferramenta dentro de um plano que organiza função, movimento e ambiente.
Nesta faixa dos 2 aos 6 anos, três padrões aparecem muito no consultório: pisada em rotação interna (pés para dentro), rotação externa (pés para fora) e marcha na ponta do pé. Vamos falar do que a ciência sustenta e como usamos palmilhas com critério — especialmente a gait plate para os casos de rotação.
Pisada em rotação interna (pés para dentro): quando faz sentido usar palmilha?

A rotação interna (“intoeing”) pode ter várias origens (anteversão femoral, torção tibial, antepé aduto etc.). Muitos casos são variações do desenvolvimento e melhoram com o tempo; por isso, a literatura reforça que a condução deve ser criteriosa e individualizada. Uma revisão sobre manejo não cirúrgico aponta que a evidência para órteses e palmilhas é limitada e heterogênea, e recomenda cautela ao generalizar indicações. Mesmo assim, há achados sugerindo que gait plates e extensões do tipo gait plate podem ajudar em alguns casos sintomáticos (ex.: tropeços, quedas, queixa funcional). [1]
Quando olhamos especificamente para a gait plate (um tipo de palmilha com desenho que induz uma mudança no ângulo de progressão do pé), estudos mostram melhora mensurável no padrão da marcha em crianças com intoeing. Um estudo encontrou melhora no “ângulo de marcha”/foot progression angle e em parâmetros de apoio plantar em crianças com intoeing associado a anteversão femoral. [2] Outro ensaio mais recente observou que tanto a gait plate quanto uma modificação no calçado (cunha lateral) podem melhorar o ângulo de progressão do pé após algumas semanas — com a ressalva de amostras pequenas e necessidade de estudos maiores. [3]
Na prática clínica (e no nosso tom Human): quando a criança tem rotação interna, a pergunta não é “tem que usar palmilha?”, e sim: isso está impactando função? Ela tropeça muito? Evita brincar? Cansa rápido? Compensa com joelho e quadril? Se sim, a gait plate pode entrar como um “guia” para o sistema aprender um caminho mais eficiente — sempre junto de exercícios, brincadeiras dirigidas, organização do tronco/quadril e ajustes no dia a dia.
Pisada em rotação externa (pés para fora): e a palmilha, entra onde?

A rotação externa (“out-toeing”) também tem múltiplas causas, e muitas vezes é uma adaptação postural do crescimento. A diferença é que existe menos evidência direta de palmilhas específicas para “corrigir” rotação externa de forma universal.
O que a ciência e a boa prática pedem aqui é um raciocínio claro: antes de pensar em palmilha, é preciso entender de onde vem a rotação (quadril? tíbia? pé?) e se há impacto funcional. Revisões sobre padrões rotacionais em crianças reforçam que a base de evidência para intervenções não cirúrgicas ainda é pequena e variável. [1]
Onde a gait plate pode entrar (com critério): em alguns casos, usamos configurações de palmilha/órtese para influenciar o ângulo de progressão do pé e reduzir compensações, principalmente quando há queixa funcional associada. A lógica é semelhante à do intoeing: não é “corrigir a criança”, é reduzir o custo biomecânico do padrão enquanto o sistema amadurece — e monitorar resposta.
Marcha na ponta do pé (toe walking): o que as evidências dizem sobre órteses/palmilhas?

A marcha na ponta do pé pode ser transitória em fases do desenvolvimento, mas quando persiste e vira padrão, chamamos de idiopathic toe walking (ITW) quando não há outra condição neurológica/ortopédica explicando. Para esse tema, existe uma base de evidência organizada em revisões e ensaios.
Uma revisão (estilo Cochrane) listada no PEDro destaca que os estudos ainda são poucos e que a certeza das evidências varia, ou seja, nada de “receita pronta”. [4] Ainda assim, há ensaio clínico randomizado, comparando dois tipos de órtese: uma AFO articulada versus uma combinação tipo “footplate/foot orthosis”, mostrando melhora do padrão com o uso das órteses e diferenças na manutenção imediata após removê-las, além de preferências dos pais relacionadas a praticidade e estética. [5] Uma revisão sobre intervenções em ITW também cita esse RCT como parte do corpo de evidências disponível. [6]
Como traduzimos isso para o cuidado real: em toe walking, a palmilha/órtese é mais útil quando faz parte de um plano que inclui mobilidade de tornozelo, força, controle de tronco, integração sensorial e treino de marcha porque, muitas vezes, o sistema está buscando estabilidade “indo para a ponta”. A órtese pode ser uma ponte: organiza a tarefa enquanto o corpo aprende outra estratégia.
Onde a “gait plate” se encaixa (rotação interna e externa)

A gait plate é uma palmilha com desenho específico para influenciar a rotação do pé durante a marcha e ajustar o foot progression angle. A literatura descreve efeitos pequenos a moderados, com melhora de parâmetros de marcha e percepção funcional em parte das crianças, especialmente no intoeing. [2–3] E uma revisão de manejo não cirúrgico reconhece a possibilidade de benefício, mas reforça que a evidência ainda é limitada. [1]
Na Human, isso vira uma regra simples: se a palmilha muda o pé, mas não muda o corpo, o caso não fecha. A palmilha precisa caminhar junto com estímulos para quadril, tronco, equilíbrio e coordenação — e com a participação da família.
O que você pode esperar de uma boa indicação de palmilha (e o que evitar)
Uma boa indicação começa com três perguntas:
- Isso é variação do desenvolvimento ou há sinais de alerta? (dor, regressão, grande assimetria, rigidez, quedas excessivas, atraso motor relevante)
- Qual é a origem provável do padrão? (pé, tíbia, fêmur, tônus, coordenação, sensorial)
- A palmilha vai servir para quê? (reduzir tropeços, alinhar progressão, dar estabilidade, melhorar tolerância à brincadeira)
Quando a indicação é bem feita, a palmilha não “prende” a criança — ela libera: melhora eficiência da marcha, reduz compensações e facilita novas aquisições motoras, sempre com reavaliações periódicas.
Referências (PubMed e PEDro)
[1] Uden H, Scharfbillig R, Causby R. Non-surgical management of a pediatric “intoed” gait pattern.
[2] Ganjehie S, et al. The efficiency of gait plate insole for children with in-toeing gait… (PubMed).
[3] Parian S, et al. Effectiveness of gait plate insole and lateral sole wedged shoes… (PubMed, 2024).
[4] PEDro – Interventions for idiopathic toe walking (record).
[5] PEDro – RCT comparing orthoses for idiopathic toe walking (record-detail/59727).
[6] Caserta AJ, et al. Interventions for idiopathic toe walking (review, PMC).


